Um desconforto persistente
exige uma nova posição na poltrona.
O corpo ainda reclama, quando todo o resto resignou-se.
Este epílogo da vontade
fecho precoce do tempo de meus sonhos
não se alimenta de mágoas,
amores desfeitos, tristezas metafísicas.
Acontece mais como um repentino estado de lucidez
sereno silente seco.
As forças ainda não me faltam
Resta-me algum tempo, muitos anos talvez - quem ao certo o saberá?
Tempo o bastante em todo o caso
para comer, chorar, gozar, sorrir, sobreviver.
Que não cause surpresa, pois é possível,
eu diria mesmo inevitável,
viver a realidade de todos esses hábitos
mesmo que as esperanças todas
tenham encontrado seu ineludível fim.
Viver acorrentado ao presente,
o mesmo e novo, sempre,
aquele que não consegue esperar-se em tempos do porvir
ou esquecer-se nas cores desbotadas e distantes do passado.
O tempo... Essa forma vazia
que preenchemos para viver.
Esse animal indomável que marcha sempre
apesar de mim e de tudo.
Minha estante oferece mais alguns livros,
Com meus discos atravessarei outras tantas horas,
Com novas mulheres ainda viverei os mesmos ritos de amor e desamor.
Seguirei novos e velhos caminhos
E em tudo isso se me mostra o que é falso e absurdo.
Deixar-se viver esperar sonhar deixar de viver persistir permitir perder.
Me é chegado um tempo em que o que haveria de ser já não foi.
Vejo claro como o sol que não foi porque não havia mesmo como sê-lo.
Sem dor admito o fracasso - se assim o convém chamá-lo...
Essas linhas mal traçadas são, eu sei, minha confissão.
Mas não espero piedade ou homenagem em estátuas de praças em cidades do interior.
Não há tristeza ou nobreza nesse deixar-se na varanda.
O certo é que meus olhos grandes e atentos
observam sem mais o mundo que continua.
E o que incomoda, deveras,
é apenas este cheiro azedo de estrume
que penetrou o ar e me desagrada o olfato.
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