Automático, percorro minhas estradas sem percebê-las, fugindo ao caos através de malabarismos interiores. Arremesso meus pensamentos e idéias pelo simples deleite de os poder recolher novamente, satisfeito se não se desarranjam e se tudo persiste na ordem costumeira. Ao longo dos anos, soube cultivar, de forma calma e persistente, uma habilidade completa nessas artes. Demoro-me sempre a arremessar essas pequenas esferas e a fruir amiúde o prazer de, em seguida, agarrar firme tudo o que lancei e reforçar assim a certeza da certeza que sobre todas as coisas já possuía.
Acontece que, por vezes num lançar mais desavisado e desatento, derrubo tudo ao chão, e no processo de apanhar os frutos caídos percebo que alguns apodreceram. Então, o estômago se me embrulha, os calafrios me sobem a espinha e das mãos a umidade do suor frio mancha os papéis que trago nos bolsos. O mundo me bate à cara e exige que eu o veja sem os meus olhos. Minha mesquinhez se torna flagrante e me acomete uma necessidade imperiosa de escrever, como que para buscar redenção dos crimes que eu, rico em entendimento, pratiquei. Pois aconteceu de novo. De manhã, tratava de me entreter lançando as pequenas bolas. À tarde, elas foram todas ao chão.
O acontecimento, como de regra, é simples e cômico. Há algumas noites o Teatro Municipal de São Paulo se abriu às gentes que se apinhavam pelas ruas durante a Virada Cultural. Miríades impressionantes de tipos e feições cruzavam-se pelos eventos: não formavam um todo integrado, mas um concentrado de mundos dependentes e irreconciliáveis. Vingança romana, como a invasão de um território bárbaro pela civilização: a tomada de uma terra hostil, que à noite se reservava à ralé e aos marginais.
O público, bem protegido pelas abundantes forças policiais, transitava sem medo entre os desvalidos. Ao poucos se habituava ao nojo desse cenário de gentes atiradas ao chão, disputando o espaço das calçadas com os conjuntos de banheiros químicos geometricamente dispostos. Enquanto isso, aqueles trapos humanos, protegidos do frio da noite paulistana por cobertas rotas e imundas, olhavam desconfiados. Além deles, também as prostitutas e travestis insistiam em não abandonar seu território e discretamente resistiam – aproveitando, quanto possível, as dádivas que a civilização transladou a seu espaço.
Acontece mais ou menos assim. Um garoto teimoso mistura dois reagentes e espera. Os dois elementos se interpenetram calmamente até encontrarem a paz de um equilíbrio instável. As substâncias arredias resistem à combinação e aguardam tensas. O garoto já decepcionado e impaciente desiste do experimento e lhe maltrata com um empurrão. Era o choque que esperava o composto para explodir pelos ares. No caso, ouso imaginar no papel do menino a cidade de São Paulo. Ela preparou os elementos e os colocou em contato e providenciou o leve peteleco que faltava à mistura. O Teatro Municipal, aberto ao público das ruas, sentiu a explosão – que eu e os demais não percebemos.
Pois então, se nas ruas a civilização avançava sobre as posições da ralé, naquele outro espaço, cuidadosamente construído para receber a nata da sociedade paulista, o contrário acontecia. Desforra inconsciente, durante as apresentações musicais que lá ocorreram, a vida das ruas, tida sempre por inadequada à riqueza e tradição do lugar, resolveu penetrá-lo e sentir a magia daquele espaço que a tantos memoráveis artistas já encantou. Seguindo uma multidão ansiosa pelos seus ídolos e por um ambiente menos gélido, também os abandonados das esquinas tiveram oportunidade de conhecer os encantos da arquitetura do teatro – aliás, arquitetura deles já bastante conhecida, mas sempre pelo lado de fora, à vista da janela que alguns sequer possuem ou como mobília de suas salas e banheiros.
Eu também, visitante virgem de ambiente tão requintado e belo, permaneci boquiaberto por largo tempo quando à entrada me deparei com uma escadaria e lustres tão vistosos. Maravilhados, eu e eles e os demais, ocupamos aquela espécie de templo.
Sei pouco das intenções dos que conceberam e construíram com tanta grandeza aquele lugar. Mas posso afirmar que suas proporções, tanto quanto a sua beleza, têm o impacto do medo. Sentia-me ligeiramente desconfortável, como que diminuído e observado. Sabendo das etiquetas, cujo conteúdo realmente desconhecia, tratei de me portar com rigor, em postura solene e importante. Artificial, tencionava conter o espanto e a sensação de euforia e curiosidade. Não me havia outra maneira. As regras existiam e de alguma forma haveria de honrá-las. Ridículo, mas me sentia superior no momento em que subia as escadas apressado pelos gritos dos seguranças que anunciavam o iminente início do show. Um pouco inseguro, mas em todo caso, superior a muitos dos demais que lá estavam e que daquelas solenidades nunca haviam ouvido falar. Agiam tão naturalmente que incomodavam e fermentavam transtorno. Ruidosos e expansivos, exibiam-se nos espelhos e exultavam de alegria. Flashes de máquinas digitais disparando e capturando todo detalhe, olhares assombrados e perdidos nas pinturas e adornos das paredes e colunas. Cronópios no teatro: felizes e incompreendidos pela censura de olhares rigorosos das pessoas da ordem – olhares como o meu.
Enquanto subia as escadas com pressa de assumir meu lugar, notei ainda a presença de um travesti. Já me revelei como pessoa da ordem e não negarei meu incômodo. Não tanto pela pessoa, ou por suas opções e necessidades de sobrevivência. O que me incomodava mesmo era seu modo triste, desajeitado e imundo. Suas vestes refletiam suas maneiras, eu os via sujos e o seu ziguezaguear de álcool exagerava-me essa impressão. Entretanto, seu andar cambaleante – degrau, quecarrosselumcomoogiravamundo, degrau – mostrava determinação completamente excepcional para um ébrio. Havia um objetivo maior naqueles passos – talvez o desconforto de uma escada no auge da bebedeira o impulsionasse acima, força extra para fazer cessar logo seu suplício. Determinação muito maior, em todo caso, do que a dos demais, que paravam nos degraus, e, também, nos parapeitos, como que para, talvez, ver, de novo e de outro modo, a arquitetura que, imponente, os impressionava. Não estou certo, mas imagino que aquela determinação bêbada e reta não lhe tenha permitido as delícias que os outros experimentaram com essa singular visita.
De qualquer modo, essa notável e passageira presença não me retardou muito, e logo me coloquei de frente e acima do palco: vista privilegiada, tempo na fila recompensado.
Mirei ao redor, confortável e satisfeito. As filas de cadeiras acompanhavam o formato côncavo dos pavimentos. Dispostas ao pé de parapeitos ricamente adornados, abriam-se na direção do palco. Do alto daqueles vários andares, o tablado, à vista de um olhar destreinado, borrava-se pela vertigem. Uma abóbada majestosa nos protegia e admirava. No alto, um impossível lustre inundava todo o salão com luzes nobres, enfatizando as cores das pessoas em miniatura que procuravam ligeiras seus lugares nas filas defronte ao palco. Como formigas, cruzavam-se, tocavam suas antenas e logo seguiam seu caminho até o banco mais próximo. A multidão continuava a entrar quando os primeiros acordes soaram e provaram a acústica impecável do ambiente.
Chico César estava sozinho ao palco. Surgiu das cortinas, sentou em uma pequena banqueta e tomou seu violão. Às primeiras frases já era acompanhado por um coro delicado, que sussurrava respeitosamente. Com as luzes apagadas, o poeta popular se iluminava e iluminava, dispersando versos em melodia.
Os aplausos e gritos reagiram ao fim da canção. O artista agradeceu com gestos de contentamento. A ovação se prolongou até o início do próximo movimento. O silêncio respeitoso que se começava de novo a constituir revelou uma manifestação incomum.
Algumas fileiras atrás, um exclamar arrastado e pouco definido declarava seu amor ao artista. “Eu te amo, de graça!” repetiu algumas vezes aquela voz que se enrolava na língua que a articulava. Curiosos já se voltavam a examinar o descabimento dessa declaração, importunamente proferida. Mas suas atenções tornaram logo ao cantor, cujo ritmo de tambor atraía como um imã os espíritos da platéia. Aquela impertinência se teria esquecido se não tornasse de novo a incomodar. “Eu te amo, de graça! Eu te amo, de graça!”. Aos poucos o despropósito se alongava mais e mais para além dos aplausos e perturbava todo o auditório. Como se quisesse interromper o próprio espetáculo, aumentava a freqüência e a força como se assim o amor que expressava aumentasse. Ademais, frase como aquela não seria compreendida senão pelo doido que a estava a proferir. Irritados, muitos começaram a caçoar e, oportunamente, se podia ouvir reproduções da frase nos mais diversos locais do teatro. Indiferente, a voz persistia. “Eu te amo, de graça!”. “Cala a boca, peito de borracha!” respondeu alguém próximo.
Eu, que também rira daquela situação, começava já a me exasperar. Incomodado, gostaria de calar aquela voz inconveniente. Voltei o rosto, procurando a fonte da zanga e balbúrdia geral, como se meu olhar de censura pudesse fazê-la muda. Na penumbra, identifiquei aos poucos a origem da coragem despropositada que esse mantra chorava. Lentamente percebi naquelas formas o travesti bêbedo que cambaleava pelas escadas. Pudera, pensei, não haveria de ser outra pessoa.
Apesar da desaprovação comum, o travesti continuava com sua declaração, cada vez mais enfurecida, absorvendo energias de seu próprio repetir. Incompreendido, aos poucos foi deixado de lado pela atenção do público – cansado de exigir silêncio de alma tão selvagem. No intervalo das canções, alguns de muito bom humor, repetiam sua voz e seu dizer para motivo de riso resignado dos demais. O travesti, contudo, seguiu impassível até o fim e, na confusão da saída do auditório, perdeu-se em meio à multidão.
Não sei se alguém o compreendeu. Imagino que não. Ele teve a coragem de se fazer de todos desafeto para declarar sua simples e verdadeira admiração. Eu, com certeza, não dei com uma resposta até me rir da pobre figura de novo e de novo e de novo. Foi então que o escárnio mostrou-me aos poucos a náusea, e os frutos apodrecidos que percebi ao chão me vexaram.
Duvido que aquele sublime ambiente em seus longos anos de existência tenha presenciado declaração mais singela e pura. Afeito às grandiosas demonstrações de amor de poetas e músicos e dramaturgos, o espírito do teatro por certo que se prostrou ao lirismo bêbado daquele travesti que eu e tantos desprezamos. Ridículo, como se diz das cartas de amor, ele cantava sua paixão e tragédia.
Pudesse eu voltar atrás e lhe teria gritado que o compreendia sim, e que seu sentimento honrava as mais belas encenações que o teatro já vira! Mas, pensando bem, acho que isso pouco lhe daria. Sua determinação não dependia da aprovação ou desaprovação de quem quer que fosse. Ela nascia do coração de um homem que para sobre-viver precisava, todos os dias, vender a si mesmo e a seu amor, e que, então, declarava aos tropeços e tão claro quanto lhe era possível, que àquele poeta negro amava e amaria de graça, e que ser humano também era.
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