Ah amor,
se as palavras que trocamos,
afiadas pela dor e a desilusão,
não houvessem trespassado e dilacerado
nosso peito,
se a lembrança dos dedos entrelaçados
e do amor sempre presente
não se houvesse borrado
pelos gritos de angústia e as lágrimas de apelo,
talvez pudéssemos renascer em esperança.
Ah, se os momentos vividos,
que os enigmas da memória
fazem tão puros e belos,
pudessem resgatar do abismo
e iluminar essa escuridão
que somos nós...
Mas depois que a vida em fúria
nos fez fragmentos e soluços
e nossos olhares baixos
em triste introspecção já não
se buscam em companhia,
todo o querer se derramou
em mares de ressentimento e mágoa.
Restou-me só este poema,
este gosto amargo
a manchar a garganta.
Um pressentimento sombrio
de um crepúsculo que não espera
a branca redenção da manhã.
Noite fria...
Para sempre agora na triste companhia
da solidão que tu deixaste:
esta flor ingrata
nascida das cinzas do que fomos.
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