“O combate é de todas as coisas o pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros, homens; de uns fez escravos, de outros livres” – Heráclito de Éfeso
A literatura sempre me acompanhou pelos momentos de desespero e solidão. Aqueles momentos quando avançamos por caminhos sombrios, freqüentados por poucos. Nesses itinerários conhecemos alguns outros caminhantes erráticos e trocamos experiências. Saudamo-nos e seguimos, por certo tempo, juntos. Podemos não imaginar, mas seus ensinamentos, simples ou complexos, concretos ou abstratos, instalam-se em nosso ser, que não mais se diferencia do estranho conjunto que perfazem. À medida que caminhamos e nossos companheiros conhecemos melhor, também nós perdemo-nos em seu seio. Quando, de novo, nos temos sozinhos, muito deles trazemos conosco.
Em meus périplos, algumas vezes tristes, cruzei com muitas figuras que muito me ensinaram durante nossa trajetória convergente. Sempre disponíveis e prestativas, prontas a, se necessário, me conduzir ao mais profundo e sombrio nível dos meus seres. Das diversas figuras que nos incitam a continuar, a não nos deixar atemorizar pela escuridão das passagens, com algumas tenho afinidades de percurso de modo que, súbito, as reencontro e, novamente, me lembram o que já ensinaram e também o que não sabia eu que já continham seus ensinamentos.
Hoje me reencontrei com Borges, nos caminhos que correm próximos ao sempre diferente rio de Heráclito. Ele me presenteou com um sentido mais profundo e pessoal de um de seus contos.
Em seu “O Livro de Areia”, escrito com a coragem e percepção de uma alma cuja visão se apaga, já me contara a história de um poeta que de um rei deveria cantar as proezas. Hoje, ele me fez ver para além daqueles cantos:
A primeira versão do canto do poeta ergueu-se das normas e imagens clássicas; de pureza inaudita era tal ode à grandeza da batalha vencida. Aprovado pelo rei, que mandara copiar e distribuir amplamente aqueles versos, o poeta ainda teve oportunidade de transformar e fazer maior a sua obra – pois por belo que fosse o poema não fora capaz de acelerar o sangue nas veias, suspender a ordem do mundo ou fazer tremer as terras do reino.
Transcorrido o novo prazo de um ano, torna o poeta com seu canto, vacilante, confuso, deveras caótico. A batalha fora transportada para dentro do poema, os versos batalhavam entre si e continham também a perpétua batalha das palavras. Maravilhado, o rei mandou que no cofre de marfim se guardasse o único exemplar. Ao poeta, concedeu nova oportunidade de fazer ainda maior sua obra e, com ela, a grandeza da batalha.
Um ano mais e o poeta volta, sem qualquer papel nas mãos. Desfigurado e atormentado, olhos distantes ou cegos, negava-se a cantar a ode que fizera (e que por Deus fosse concedido que nunca a tivesse feito!). Aos apelos do rei, o poeta disse o poema. Um único verso, concebido no despertar de um alvorecer. O rei que muito já vira e conquistara não pôde comparar nada com a beleza de tal poema.
Naquele momento, percebeu o motivo dos tormentos do poeta. Alcançar assim o Belo era, por certo, um pecado – do qual agora era cúmplice. Um pecado de tão grande monta que exigia expiação.
Ao primeiro poema, o rei presenteara ao poeta com um espelho. Ao segundo, suas dádivas se fizeram em forma de uma máscara. Ao fechamento da trindade, concedeu ao poeta uma adaga.
Do poeta soube-se que pôs termo à vida tão logo abandonou o palácio. Do rei, que vaga como mendigo em terras que já foram suas. Sabe-se também que jamais voltou a dizer o poema.
***
Volto pelos caminhos que me conduziram ao encontro do mestre dos labirintos e espelhos. Sigo triste, mas não sigo só. Borges continua a me falar e tecer, em mim, aquelas “perplexidades que não sem certa soberba se chamam metafísica”.
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