Aos que familiares são dos versos de Drummond, não receio admitir a inspiração que um de seus poemas me moveu o argumento do exercício que abaixo publico. Nesses meus passos vacilantes, parece que as influências que experimentamos escondem-se nos meandros de nossa consciência e retornam, de repente – e, ao menos a mim, inexplicavelmente. Menos que autor, considero-me instrumento, ferramenta que certas idéias com estranhas finalidades utilizam para se realizar.
As Prisões do Tempo
- Descansou – era o que repetiam.
As condolências várias que recebeu naquele dia, como representante único de uma estirpe que já não insiste em se manter e perpetuar, pesaram-lhe muito mais do que a morte de sua tia. Por certo que, mesmo insensível – como dele diziam e pensava de si - todo aquele sofrimento da moribunda causara-lhe pena. Afinal, ela passara meses definhando em uma cama, padecendo de uma doença terminal; e coisas dessa ordem não sucedem sem, ao menos, causar um leve frêmito, uma espécie de pulso que irradia dor e angústia aos viventes um pouco próximos. Mas não era menos exato que a morte da mulher a ele pouco mudava o fluxo irrefreável que enxergava nas coisas e seres. Na verdade, a forma como tudo se deu não era mais do que uma das demonstrações empíricas de sua visão da decadência universal.
A notícia lhe chegara ao trabalho, nas suas rotineiras tarefas e arquivos, cuja ordem era obstinado em manter. Não o surpreendeu. Pois, distante, acompanhava ainda a vida da pobre, parente único que era. E apesar de tudo o mais, nunca se poderá lhe acusar de fugir às penosas responsabilidades que uma doença e a iminência de uma morte carregam consigo. Chegou mesmo a entristecer.
Enterrada, da velha agora sobravam apenas antigos pertences, quinquilharias e um velho labrador, sua companhia real nos dias e horas derradeiros. Não deixava herança, mas também não lhe acumulava com dívidas, tão comuns em famílias cujo desfecho é de tal modo tardio e trágico. Depois do cão, devidamente entregue aos cuidados de um canil, cumpria livrar-se de todo o resto e, finalmente, colocar fim aos sofrimentos e à existência de Marta. Satisfez as exigências morais de sua consciência e depois de percorrer asilos e abrigos, abandonando lá tudo o que conseguia lhes fazer aceitar, voltou a seu apartamento no décimo segundo andar de um decadente edifício da rua VIII, nos arredores do centro velho.
Mas como uma vida realiza-se através de um paulatino acumular de memórias e objetos, quase sempre mais persistentes que ela própria, após aquela jornada entre os desvalidos restava das memórias da tia ainda uma pequena caixa, recheada com objetos estritamente pessoais, impossíveis de se doar. “Lixo familiar!” – estava a exclamar, detendo-se, em seguida, ao pensar que não fazia lá muito sentido ralhar assim com os objetos de uma velha que sequer terminara de atravessar o rio e que, por certo, ainda estava a negociar as moedas com o sombrio barqueiro.
Então, como que para realizar a triagem final e calcular os resultados daquela sofrida existência, resolveu espiar o conteúdo da caixa, virando-a toda sobre a mesa. Pingentes, cartas e postais, pequenas recordações de amores passados – uns contrariados, outros bem vividos, embalagens de chocolate, um velho relógio, alguns diários e fotografias várias, das paisagens e pessoas que pela vida de Marta passaram e triste lhe fizeram a sina.
Espalhadas por sobre a antiga mesa de carvalho, essas lembranças poderiam reunir-se num fio contínuo, suscitando emoções, tremores e lágrimas, recuperando imagens, gestos, odores, amores de homens e mulheres no ápice fulminante de suas existências. Mas, para isso, seria necessário que a dona desses objetos estivesse a examiná-los. A ele, porém, careciam tanto de sentido sentimental quanto prático.
Arrependido de não se ter deixado levar e exclamado largamente contra essas detestáveis relíquias, passou a atirá-las, uma a uma, de volta à caixa. Súbito, um breve arrepio percorreu-lhe o corpo ao perceber que, em uma das fotos, havia um homem que lhe encarava detidamente. Um desconhecido, como tantos outros que preenchiam aqueles retratos com faces humanas. Com um ar distinto, trajava uma sobrecasaca e se apoiava em uma bengala imponente. Seu rosto pálido e magro era em parte encoberto por um longo bigode, finamente tratado. Mas eram seus olhos, compenetrados mesmo distantes, que davam um aspecto singular àquela figura. Ao frêmito repentino, acompanhou um leve hesitar das mãos e da vontade e um sentimento indefinível, mas absolutamente desagradável. Colocou a fotografia de lado, juntou à caixa os demais objetos da tia e levou-os ao lixo. O pálido homem fora, por hora, salvo do destino que os demais pertences de Marta padeceram. Seu olhar inquietante, suas vestes e bigode démodé garantiram-lhe, ao contrário, o ostracismo do fundo de um baú, bem postado no interior de um armário meticulosamente ordenado em cores, tipos e tamanho de camisas.
A morte, como dizem, é um dos eventos naturais que os seres humanos mais têm dificuldade em aceitar. Todo o clima mórbido que acompanhou o funeral da tia, as providências e pesares que rechearam as últimas horas, tudo isso o colocou em contato com uma experiência desagradável o suficiente para infundir, mesmo nele, aquele receio ante ao desconhecido que nos espera no esgotar de nossas auroras. Mas a vida, por hora, segue seu curso e não há mal que uma boa noite de sono não possa aplacar. Pensando nisso, deitou-se cedo desejando uma noite sem sonhos. As tramas do inconsciente, contudo, tecem-se de maneira que os homens não podem divisar ou compreender. Por isso, no meio da noite, ele se descobriu fugindo desesperadamente, sem clareza alguma da razão, mas convicto da necessidade imperiosa dessa empresa. Dobrando esquinas estranhas ou conhecidas, trombando postes e árvores, desviando de seres móveis tão inertes quanto eles, seguiu em fuga até alcançar uma rua cuja passagem de repente deu lugar a um alto muro de concreto. De seu arredor sombrio cercou-se dele uma figura de homem, protegida pelas sombras. A figura se aproximava e, conforme a luz opaca ia iluminando e distinguindo-lhe os traços, sua face e aspecto tornavam-se terrivelmente conhecidos.
Ao perceber em seu perseguidor o homem da fotografia que destinara ao esquecimento, um pavor indescritível manifestou-se em todos os seus gestos. Suava frio; sentia náuseas. Bastou que o olhar fixo do homem pousasse sobre ele para que se desmanchasse em pequenos fragmentos, que vibravam de terror. A visão, impassível, tinha em uma das mãos a bengala, a outra em um dos bolsos. “O que queres?” clamou ao desconhecido, com uma voz pálida que misturava súplica e medo. O homem da sobrecasaca, mantendo-se em silêncio, tirou do bolso a mão que em seguida parecia tatear o ar, indefinidamente. Acuado como uma presa cujas esperanças de sobrevivência teimam em persistir movidas apenas por um instinto irracional, retrocedeu um passo. O desconhecido avançou a mesma medida. Voltaria mais se pudesse, mas já se encontrava aos pés do muro. Mais um passo do homem; e seu peito ardia. Finalmente, outro – o derradeiro; não era mais capaz de manter a respiração. A mão estendida em sua direção aproximou-se lenta, mas determinada. Ele hesitou e não impediu que a mão suavemente lhe tocasse o rosto. Tão perto estava do desconhecido que podia sentir-lhe o cheiro de suor seco e mofo que exalava das antigas vestimentas. À medida que a figura acarinhava-lhe a face como a um filho querido faria um pai, sensação que jamais experimentara, o medo cessou e a respiração aos poucos retomou seu ritmo rotineiro.
Mas o olhar do homem mantinha o antigo magnetismo... Sentia-se absorto, impelido a mergulhar no oceano profundo daqueles tristes olhos negros e se perder eternamente num vaguear entre formas difusas, frias e mortas. Mesmo hipnotizado, percebia-se cada vez mais frio; o corpo estremecia. Seu calor parecia transferir-se todo àquela figura que se mostrava, então, mais forte e confiante. A vida lhe escapava e era colhida pelas mãos do homem, que prontamente tomava para si aquela nova chance de existência. Movido pelo medo, recobrou as forças, debatendo-se, persistente e inutilmente, contra o homem que agora tomava todo seu corpo, que se prostrava, sempre mais inerte. Seu pavor cresceu junto à dificuldade de respirar. Desfaleceu.
Confuso, num estado de semiconsciência, sentiu-se de novo sobre a cama, atado, com os membros pesados e imóveis. A vida penetrou-lhe novamente e, através de um esforço homérico, despertou e se pôs de pé.
Evitou qualquer interpretação psicanalítica ou mística de seu sonho. Afinal, depois dos últimos acontecimentos era completamente normal ter pesadelos. Ademais, é propriedade natural das noites de insônia e maus sonhos o de serem prontamente esquecidas logo que poucas horas de sono descansem nossas mentes. Por isso, é perfeitamente compreensível que nosso homem tenha, no dia seguinte, retornado, sem mais, a seus afazeres e ao ordenamento de seus arquivos.
Mas a noite trouxe de volta seus suores e tremores. A triste figura voltou a lhe povoar os sonhos, inquietante. Ainda que menos definidas, as novas visões não foram menos aterradoras. A perseguição prosseguia; seu destino permanecia ineludível. Alternava momentos de vigília ou sono e, nesse compasso, a impressão do pesadelo penetrava os poros de sua realidade desperta, estendendo-se para além do limiar que separava os dois mundos.
Aqueles que já padeceram e rolaram em suas camas em intermináveis noites de insônia bem entendem que tal sorte de pensamentos recorrentes torna insuportável a nova tentativa de fechar os olhos e adormecer. Por isso, fez-se rígido, libertou os membros da prisão dos cobertores, sentiu contra os pés o frio e sólido piso do quarto, respirou a atmosfera impessoal dos corredores e banhou o rosto na corrente de água que principiava a inundar a pia do banheiro. E mesmo esses subterfúgios mostraram-se incapazes de libertar sua mente daquele demônio feito retrato.
Ao armário e ao baú, seguiu-se a reabilitação da velha imagem ao mundo das coisas. Sobre a mesa, voltou a examinar a figura. Vestes pesadas, uma atmosfera sufocante. Mas havia algo. O homem agora tinha a face levemente contorcida e segurava alguma coisa em uma das mãos. Não podia conceber que tal fato lhe tivesse passado despercebido na primeira vez que se detivera sobre a foto. Um objeto deveras pequeno, uma espécie de bastão alinhado perpendicularmente aos dedos de sua mão direita. Tomou uma lupa e se desvaneceram as dúvidas: o homem fumava um charuto.
Tombou pesadamente sobre a cadeira. Riscou um fósforo, acendeu seu Marlboro. Um trago; depois outro; mais um. Procurava no fumo um meio de aplacar suas inquietações, embora mantivesse ainda os olhos fixos sobre a fotografia. Sentia-se irresistivelmente atraído. O medo misturava-se com uma espécie de êxtase, um sentimento de euforia tensa, como se algo que lhe houvesse escapado há muito estivesse batendo à porta, cobrando a fatura pelo seu longo exílio. Um espasmo de horror percorreu-lhe o corpo e não pôde deixar de imaginar que sua face executara, assim, contrações tortas similares à do homem.
A demorada aurora pode não trazer esperanças, mas carrega consigo a perpétua necessidade do cumprimento diário das responsabilidades de um homem de meia idade. No seu caso, há algum tempo deixara já de negar que se acomodara a seus afazeres e que na rotina existia um conforto que lhe bastava completamente. Nesse dia, porém, uma força maior do que a das convenções e necessidades sociais manteve-o inerte diante de uma figura que não conhecia, que não entendia, e que, em outra ocasião, por certo que lhe seria digna de escárnio.
Seria lícito, então, narrar as longas horas que esteve ali, prostrado ao pé da mesa e atado à fotografia como uma bola de ferro a um prisioneiro? O fluxo do tempo continuava sua marcha incessante? Ou estaria também ele preso, violada a sua essência, como a do instante em que o retrato foi tirado? Talvez, rebelando-se contra tal arbitrariedade impetrada pelo poder de uma objetiva, a fotografia parecia sofrer sutis e progressivas transformações. A face contorcia-se continuamente em formas às vezes ridículas. Os braços moviam-se, como que cansados dessa incômoda fixidez a que estão perpetuamente condenados os momentos desde de que Daguerre achou por bem gravá-los em suas chapas metálicas. A fumaça do charuto por vezes ondulava e ascendia, noutros momentos se deixava levar pelo vento, que agora soprava forte.
Imerso na atmosfera daquele instante, já não podia afirmar o que compunha o retrato e qual das partes do que via e sentia pertencia ao que sempre reconheceu e chamou por realidade. As fronteiras se foram dissolvendo e os dois momentos ligando-se e se confundindo. Já não enxergava um desconhecido. Percebia nele seus próprios olhos. Sentia vida naquelas formas e sofrimento naquele rosto pálido. Havia fúria e desejo incontidos naqueles movimentos.
Aos poucos, o ponto de tangência destes distintos mundos fez-se um universo novo, completo, acabado e impossível. Não se reconhecia mais em seu apartamento, mas tampouco se transportara simplesmente ao interior da fotografia. Algo novo surgiu daquele encontro. Uma realidade outra, sem referências de espaço ou tempo, em que coexistiam igualmente ele e o ser do retrato. Este ganhara traços mais nítidos e não menos aterradores. Mas existia cumplicidade entre eles. Viviam os dois, respiravam, moviam-se, olhavam-se, reconheciam-se. Haviam tornado-se iguais.
Antes que se enveredasse pelos caminhos do pensamento racional à cata de uma explicação aceitável para essa conjunção, sentiu-se subitamente ameaçado. O ar pesava-lhe nos pulmões e a conhecida náusea lhe subia pela garganta. Essas sensações... sabia que já as havia experimentado.
Não se poderia afirmar com certeza dos dois quem principiou o Ato, se fora ele com sua fuga incompreensível, ou se fora o seu perseguidor que se movia rápido, apesar da bengala. As leis que regiam essa perseguição partilhavam do caráter impossível do universo em que se desenrolava. Assim, por mais que fugisse tinha o homem sempre em seu encalço. Atravessou as mesmas e outras ruas que nos seus sonhos não conhecera, e encontrou uma variedade impressionante de seres inertes, como que castigados por cruéis divindades a padecerem a imobilidade das estátuas.
Seria temerária qualquer palavra sobre o transcorrer do tempo naquele ambiente absurdo. O tempo e espaço combinaram-se lá indissociavelmente. O movimento dos diferentes cenários e obstáculos à fuga eram a única evidência que podia fazer pensar que, naquela realidade, algo como a sucessão de instantes estivesse atada por um fio. Por isso, nada podemos dizer se apenas foram momentos de uma perseguição implacável, ou se a caçada durou milênios afora, antes de terminar em um outrora visitado e conhecido beco.
Sem saída, à medida que se aproximava o homem da sobrecasaca, percebeu que não havia lugar para os dois em um mundo que não fosse aquele. Imaginou que tudo fosse, talvez, uma armadilha, uma forma do passado cobrar seu preço, de voltar à vida e executar, por fim, a sina que ele herdara como nobre relíquia de família - “Lixo familiar!”. O outro se deteve diante dele. Um instante de exame e satisfação; um leve sorriso percorreu os lábios do homem. A cena era conhecida; também o seu desfecho.
O sangue pulsava nas artérias no compasso desenfreado e confuso de seus pensamentos. Adivinhava os movimentos do homem, mas não sabia como vencê-lo. A situação era absurda, impossível. Era necessário acordar, voltar ao mundo e esquecer esses pesadelos que o cansaço e a indisposição lhe estavam a presentear. Era isso. Bastava abrir os olhos e o desconhecido desapareceria; voltaria à sua forma fixa de retrato, acorrentado a sua triste e imóvel realidade. Mas, afinal, quem seria ele? Não; não deveria alimentar essa fantasia. Deveria asfixiá-la, cortar o fluxo de imaginação que a nutria. Quem era, por que ou para que estava ali avançando sobre ele, pouco importava. Era preciso pará-lo. Bastava abrir os olhos. Fácil; voltar ao quarto e tragar um bom conhaque. Mas as mãos já lhe tocavam o rosto. Afastá-lo; libertar-se. Um turbilhão de idéias e pensamentos, enquanto fraquejava... Os olhos do homem penetraram-lhe, fundiram-se com os seus e, então, compreendeu. Acabara; não existiam mais esperanças.
Suas articulações, e em particular o joelho, doíam excessivamente quando acordou. Estava jogado ao chão, como um velho capacho. Ergueu-se com dificuldade e examinou o quarto. A foto continuava sobre a mesa. Não precisou olhá-la. A sensação que ainda sentia fazia dispensáveis certos tipos de curiosidades. Não necessitava examiná-la, pois sabia que não o iria encontrar. A conjunção completara-se e o desconhecido estava lá, vivo, à sua espreita. Sabia que a qualquer momento iria reaparecer, apoderar-se de sua força e se tornar mais forte, mais vivo. Riscou um fósforo e acendeu outro cigarro. Hesitou um momento, mas, antes que a chama lhe machucasse os dedos, aproximou-a da fotografia. Observou, perplexo, enquanto o retrato ardia e desaparecia. Continuava difícil respirar. A náusea e o medo persistiam. A fuga haveria de continuar – para sempre.
As condolências várias que recebeu naquele dia, como representante único de uma estirpe que já não insiste em se manter e perpetuar, pesaram-lhe muito mais do que a morte de sua tia. Por certo que, mesmo insensível – como dele diziam e pensava de si - todo aquele sofrimento da moribunda causara-lhe pena. Afinal, ela passara meses definhando em uma cama, padecendo de uma doença terminal; e coisas dessa ordem não sucedem sem, ao menos, causar um leve frêmito, uma espécie de pulso que irradia dor e angústia aos viventes um pouco próximos. Mas não era menos exato que a morte da mulher a ele pouco mudava o fluxo irrefreável que enxergava nas coisas e seres. Na verdade, a forma como tudo se deu não era mais do que uma das demonstrações empíricas de sua visão da decadência universal.
A notícia lhe chegara ao trabalho, nas suas rotineiras tarefas e arquivos, cuja ordem era obstinado em manter. Não o surpreendeu. Pois, distante, acompanhava ainda a vida da pobre, parente único que era. E apesar de tudo o mais, nunca se poderá lhe acusar de fugir às penosas responsabilidades que uma doença e a iminência de uma morte carregam consigo. Chegou mesmo a entristecer.
Enterrada, da velha agora sobravam apenas antigos pertences, quinquilharias e um velho labrador, sua companhia real nos dias e horas derradeiros. Não deixava herança, mas também não lhe acumulava com dívidas, tão comuns em famílias cujo desfecho é de tal modo tardio e trágico. Depois do cão, devidamente entregue aos cuidados de um canil, cumpria livrar-se de todo o resto e, finalmente, colocar fim aos sofrimentos e à existência de Marta. Satisfez as exigências morais de sua consciência e depois de percorrer asilos e abrigos, abandonando lá tudo o que conseguia lhes fazer aceitar, voltou a seu apartamento no décimo segundo andar de um decadente edifício da rua VIII, nos arredores do centro velho.
Mas como uma vida realiza-se através de um paulatino acumular de memórias e objetos, quase sempre mais persistentes que ela própria, após aquela jornada entre os desvalidos restava das memórias da tia ainda uma pequena caixa, recheada com objetos estritamente pessoais, impossíveis de se doar. “Lixo familiar!” – estava a exclamar, detendo-se, em seguida, ao pensar que não fazia lá muito sentido ralhar assim com os objetos de uma velha que sequer terminara de atravessar o rio e que, por certo, ainda estava a negociar as moedas com o sombrio barqueiro.
Então, como que para realizar a triagem final e calcular os resultados daquela sofrida existência, resolveu espiar o conteúdo da caixa, virando-a toda sobre a mesa. Pingentes, cartas e postais, pequenas recordações de amores passados – uns contrariados, outros bem vividos, embalagens de chocolate, um velho relógio, alguns diários e fotografias várias, das paisagens e pessoas que pela vida de Marta passaram e triste lhe fizeram a sina.
Espalhadas por sobre a antiga mesa de carvalho, essas lembranças poderiam reunir-se num fio contínuo, suscitando emoções, tremores e lágrimas, recuperando imagens, gestos, odores, amores de homens e mulheres no ápice fulminante de suas existências. Mas, para isso, seria necessário que a dona desses objetos estivesse a examiná-los. A ele, porém, careciam tanto de sentido sentimental quanto prático.
Arrependido de não se ter deixado levar e exclamado largamente contra essas detestáveis relíquias, passou a atirá-las, uma a uma, de volta à caixa. Súbito, um breve arrepio percorreu-lhe o corpo ao perceber que, em uma das fotos, havia um homem que lhe encarava detidamente. Um desconhecido, como tantos outros que preenchiam aqueles retratos com faces humanas. Com um ar distinto, trajava uma sobrecasaca e se apoiava em uma bengala imponente. Seu rosto pálido e magro era em parte encoberto por um longo bigode, finamente tratado. Mas eram seus olhos, compenetrados mesmo distantes, que davam um aspecto singular àquela figura. Ao frêmito repentino, acompanhou um leve hesitar das mãos e da vontade e um sentimento indefinível, mas absolutamente desagradável. Colocou a fotografia de lado, juntou à caixa os demais objetos da tia e levou-os ao lixo. O pálido homem fora, por hora, salvo do destino que os demais pertences de Marta padeceram. Seu olhar inquietante, suas vestes e bigode démodé garantiram-lhe, ao contrário, o ostracismo do fundo de um baú, bem postado no interior de um armário meticulosamente ordenado em cores, tipos e tamanho de camisas.
A morte, como dizem, é um dos eventos naturais que os seres humanos mais têm dificuldade em aceitar. Todo o clima mórbido que acompanhou o funeral da tia, as providências e pesares que rechearam as últimas horas, tudo isso o colocou em contato com uma experiência desagradável o suficiente para infundir, mesmo nele, aquele receio ante ao desconhecido que nos espera no esgotar de nossas auroras. Mas a vida, por hora, segue seu curso e não há mal que uma boa noite de sono não possa aplacar. Pensando nisso, deitou-se cedo desejando uma noite sem sonhos. As tramas do inconsciente, contudo, tecem-se de maneira que os homens não podem divisar ou compreender. Por isso, no meio da noite, ele se descobriu fugindo desesperadamente, sem clareza alguma da razão, mas convicto da necessidade imperiosa dessa empresa. Dobrando esquinas estranhas ou conhecidas, trombando postes e árvores, desviando de seres móveis tão inertes quanto eles, seguiu em fuga até alcançar uma rua cuja passagem de repente deu lugar a um alto muro de concreto. De seu arredor sombrio cercou-se dele uma figura de homem, protegida pelas sombras. A figura se aproximava e, conforme a luz opaca ia iluminando e distinguindo-lhe os traços, sua face e aspecto tornavam-se terrivelmente conhecidos.
Ao perceber em seu perseguidor o homem da fotografia que destinara ao esquecimento, um pavor indescritível manifestou-se em todos os seus gestos. Suava frio; sentia náuseas. Bastou que o olhar fixo do homem pousasse sobre ele para que se desmanchasse em pequenos fragmentos, que vibravam de terror. A visão, impassível, tinha em uma das mãos a bengala, a outra em um dos bolsos. “O que queres?” clamou ao desconhecido, com uma voz pálida que misturava súplica e medo. O homem da sobrecasaca, mantendo-se em silêncio, tirou do bolso a mão que em seguida parecia tatear o ar, indefinidamente. Acuado como uma presa cujas esperanças de sobrevivência teimam em persistir movidas apenas por um instinto irracional, retrocedeu um passo. O desconhecido avançou a mesma medida. Voltaria mais se pudesse, mas já se encontrava aos pés do muro. Mais um passo do homem; e seu peito ardia. Finalmente, outro – o derradeiro; não era mais capaz de manter a respiração. A mão estendida em sua direção aproximou-se lenta, mas determinada. Ele hesitou e não impediu que a mão suavemente lhe tocasse o rosto. Tão perto estava do desconhecido que podia sentir-lhe o cheiro de suor seco e mofo que exalava das antigas vestimentas. À medida que a figura acarinhava-lhe a face como a um filho querido faria um pai, sensação que jamais experimentara, o medo cessou e a respiração aos poucos retomou seu ritmo rotineiro.
Mas o olhar do homem mantinha o antigo magnetismo... Sentia-se absorto, impelido a mergulhar no oceano profundo daqueles tristes olhos negros e se perder eternamente num vaguear entre formas difusas, frias e mortas. Mesmo hipnotizado, percebia-se cada vez mais frio; o corpo estremecia. Seu calor parecia transferir-se todo àquela figura que se mostrava, então, mais forte e confiante. A vida lhe escapava e era colhida pelas mãos do homem, que prontamente tomava para si aquela nova chance de existência. Movido pelo medo, recobrou as forças, debatendo-se, persistente e inutilmente, contra o homem que agora tomava todo seu corpo, que se prostrava, sempre mais inerte. Seu pavor cresceu junto à dificuldade de respirar. Desfaleceu.
Confuso, num estado de semiconsciência, sentiu-se de novo sobre a cama, atado, com os membros pesados e imóveis. A vida penetrou-lhe novamente e, através de um esforço homérico, despertou e se pôs de pé.
Evitou qualquer interpretação psicanalítica ou mística de seu sonho. Afinal, depois dos últimos acontecimentos era completamente normal ter pesadelos. Ademais, é propriedade natural das noites de insônia e maus sonhos o de serem prontamente esquecidas logo que poucas horas de sono descansem nossas mentes. Por isso, é perfeitamente compreensível que nosso homem tenha, no dia seguinte, retornado, sem mais, a seus afazeres e ao ordenamento de seus arquivos.
Mas a noite trouxe de volta seus suores e tremores. A triste figura voltou a lhe povoar os sonhos, inquietante. Ainda que menos definidas, as novas visões não foram menos aterradoras. A perseguição prosseguia; seu destino permanecia ineludível. Alternava momentos de vigília ou sono e, nesse compasso, a impressão do pesadelo penetrava os poros de sua realidade desperta, estendendo-se para além do limiar que separava os dois mundos.
Aqueles que já padeceram e rolaram em suas camas em intermináveis noites de insônia bem entendem que tal sorte de pensamentos recorrentes torna insuportável a nova tentativa de fechar os olhos e adormecer. Por isso, fez-se rígido, libertou os membros da prisão dos cobertores, sentiu contra os pés o frio e sólido piso do quarto, respirou a atmosfera impessoal dos corredores e banhou o rosto na corrente de água que principiava a inundar a pia do banheiro. E mesmo esses subterfúgios mostraram-se incapazes de libertar sua mente daquele demônio feito retrato.
Ao armário e ao baú, seguiu-se a reabilitação da velha imagem ao mundo das coisas. Sobre a mesa, voltou a examinar a figura. Vestes pesadas, uma atmosfera sufocante. Mas havia algo. O homem agora tinha a face levemente contorcida e segurava alguma coisa em uma das mãos. Não podia conceber que tal fato lhe tivesse passado despercebido na primeira vez que se detivera sobre a foto. Um objeto deveras pequeno, uma espécie de bastão alinhado perpendicularmente aos dedos de sua mão direita. Tomou uma lupa e se desvaneceram as dúvidas: o homem fumava um charuto.
Tombou pesadamente sobre a cadeira. Riscou um fósforo, acendeu seu Marlboro. Um trago; depois outro; mais um. Procurava no fumo um meio de aplacar suas inquietações, embora mantivesse ainda os olhos fixos sobre a fotografia. Sentia-se irresistivelmente atraído. O medo misturava-se com uma espécie de êxtase, um sentimento de euforia tensa, como se algo que lhe houvesse escapado há muito estivesse batendo à porta, cobrando a fatura pelo seu longo exílio. Um espasmo de horror percorreu-lhe o corpo e não pôde deixar de imaginar que sua face executara, assim, contrações tortas similares à do homem.
A demorada aurora pode não trazer esperanças, mas carrega consigo a perpétua necessidade do cumprimento diário das responsabilidades de um homem de meia idade. No seu caso, há algum tempo deixara já de negar que se acomodara a seus afazeres e que na rotina existia um conforto que lhe bastava completamente. Nesse dia, porém, uma força maior do que a das convenções e necessidades sociais manteve-o inerte diante de uma figura que não conhecia, que não entendia, e que, em outra ocasião, por certo que lhe seria digna de escárnio.
Seria lícito, então, narrar as longas horas que esteve ali, prostrado ao pé da mesa e atado à fotografia como uma bola de ferro a um prisioneiro? O fluxo do tempo continuava sua marcha incessante? Ou estaria também ele preso, violada a sua essência, como a do instante em que o retrato foi tirado? Talvez, rebelando-se contra tal arbitrariedade impetrada pelo poder de uma objetiva, a fotografia parecia sofrer sutis e progressivas transformações. A face contorcia-se continuamente em formas às vezes ridículas. Os braços moviam-se, como que cansados dessa incômoda fixidez a que estão perpetuamente condenados os momentos desde de que Daguerre achou por bem gravá-los em suas chapas metálicas. A fumaça do charuto por vezes ondulava e ascendia, noutros momentos se deixava levar pelo vento, que agora soprava forte.
Imerso na atmosfera daquele instante, já não podia afirmar o que compunha o retrato e qual das partes do que via e sentia pertencia ao que sempre reconheceu e chamou por realidade. As fronteiras se foram dissolvendo e os dois momentos ligando-se e se confundindo. Já não enxergava um desconhecido. Percebia nele seus próprios olhos. Sentia vida naquelas formas e sofrimento naquele rosto pálido. Havia fúria e desejo incontidos naqueles movimentos.
Aos poucos, o ponto de tangência destes distintos mundos fez-se um universo novo, completo, acabado e impossível. Não se reconhecia mais em seu apartamento, mas tampouco se transportara simplesmente ao interior da fotografia. Algo novo surgiu daquele encontro. Uma realidade outra, sem referências de espaço ou tempo, em que coexistiam igualmente ele e o ser do retrato. Este ganhara traços mais nítidos e não menos aterradores. Mas existia cumplicidade entre eles. Viviam os dois, respiravam, moviam-se, olhavam-se, reconheciam-se. Haviam tornado-se iguais.
Antes que se enveredasse pelos caminhos do pensamento racional à cata de uma explicação aceitável para essa conjunção, sentiu-se subitamente ameaçado. O ar pesava-lhe nos pulmões e a conhecida náusea lhe subia pela garganta. Essas sensações... sabia que já as havia experimentado.
Não se poderia afirmar com certeza dos dois quem principiou o Ato, se fora ele com sua fuga incompreensível, ou se fora o seu perseguidor que se movia rápido, apesar da bengala. As leis que regiam essa perseguição partilhavam do caráter impossível do universo em que se desenrolava. Assim, por mais que fugisse tinha o homem sempre em seu encalço. Atravessou as mesmas e outras ruas que nos seus sonhos não conhecera, e encontrou uma variedade impressionante de seres inertes, como que castigados por cruéis divindades a padecerem a imobilidade das estátuas.
Seria temerária qualquer palavra sobre o transcorrer do tempo naquele ambiente absurdo. O tempo e espaço combinaram-se lá indissociavelmente. O movimento dos diferentes cenários e obstáculos à fuga eram a única evidência que podia fazer pensar que, naquela realidade, algo como a sucessão de instantes estivesse atada por um fio. Por isso, nada podemos dizer se apenas foram momentos de uma perseguição implacável, ou se a caçada durou milênios afora, antes de terminar em um outrora visitado e conhecido beco.
Sem saída, à medida que se aproximava o homem da sobrecasaca, percebeu que não havia lugar para os dois em um mundo que não fosse aquele. Imaginou que tudo fosse, talvez, uma armadilha, uma forma do passado cobrar seu preço, de voltar à vida e executar, por fim, a sina que ele herdara como nobre relíquia de família - “Lixo familiar!”. O outro se deteve diante dele. Um instante de exame e satisfação; um leve sorriso percorreu os lábios do homem. A cena era conhecida; também o seu desfecho.
O sangue pulsava nas artérias no compasso desenfreado e confuso de seus pensamentos. Adivinhava os movimentos do homem, mas não sabia como vencê-lo. A situação era absurda, impossível. Era necessário acordar, voltar ao mundo e esquecer esses pesadelos que o cansaço e a indisposição lhe estavam a presentear. Era isso. Bastava abrir os olhos e o desconhecido desapareceria; voltaria à sua forma fixa de retrato, acorrentado a sua triste e imóvel realidade. Mas, afinal, quem seria ele? Não; não deveria alimentar essa fantasia. Deveria asfixiá-la, cortar o fluxo de imaginação que a nutria. Quem era, por que ou para que estava ali avançando sobre ele, pouco importava. Era preciso pará-lo. Bastava abrir os olhos. Fácil; voltar ao quarto e tragar um bom conhaque. Mas as mãos já lhe tocavam o rosto. Afastá-lo; libertar-se. Um turbilhão de idéias e pensamentos, enquanto fraquejava... Os olhos do homem penetraram-lhe, fundiram-se com os seus e, então, compreendeu. Acabara; não existiam mais esperanças.
Suas articulações, e em particular o joelho, doíam excessivamente quando acordou. Estava jogado ao chão, como um velho capacho. Ergueu-se com dificuldade e examinou o quarto. A foto continuava sobre a mesa. Não precisou olhá-la. A sensação que ainda sentia fazia dispensáveis certos tipos de curiosidades. Não necessitava examiná-la, pois sabia que não o iria encontrar. A conjunção completara-se e o desconhecido estava lá, vivo, à sua espreita. Sabia que a qualquer momento iria reaparecer, apoderar-se de sua força e se tornar mais forte, mais vivo. Riscou um fósforo e acendeu outro cigarro. Hesitou um momento, mas, antes que a chama lhe machucasse os dedos, aproximou-a da fotografia. Observou, perplexo, enquanto o retrato ardia e desaparecia. Continuava difícil respirar. A náusea e o medo persistiam. A fuga haveria de continuar – para sempre.
***
Atenção: Alguns problemas com a pontuação foram corrigidos - mas nem todos... Tal desleixo me pareceu justificado nos casos em que toda a frase deveria ser alterada: pensei que seria por bem não o fazer ao considerar a prévia publicação do conto no blog aproximações e seu estatuto de exercício despretencioso.
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