Os ecos de tua ausência
transbordam tristeza no ambiente
e a poeira acumula-se sobre o chão,
lenta e teimosa, desde que partiste.
Também o perfume
das flores que me deste
desaparece, silenciosamente,
enquanto o ar abafado circula a casa
e me penetra os pulmões.
Abandonado sobre a cama,
observo a fumaça ascender
do cigarro esquecido na cabeceira.
As formas que se vão desenhando e borrando,
erráticas,
lembram-me de tempos menos tristes,
de lugares mais vivos
povoados por sonhos e esperanças.
Um desejo irreprimível
explode da alma em fios lânguidos,
que correm pela face baixo
velados pelo remorso.
Um vazio seco
assume teu lugar no quarto.
Imperioso, estende-se na cama
ao pé de mim, junto à parede
e às lembranças
tão terríveis quando a esperança já é morta.
Meus lábios já não acariciam a suave pelagem do teu corpo.
Meus dedos ásperos não sentem mais o delicado de tua pele.
Minhas mãos buscam inúteis o desenho do teu semblante.
Em vão procuro o infinito dos teus olhos no vazio do teto manchado.
O silêncio me paralisa a alma
e grita o inevitável das próximas horas
que não passarás comigo.
Pairam sobre o meu ânimo pesado
as notas de uma melodia triste
e a saudade que logo se vai converter em esquecimento.
Mas ainda ouso imaginar a forma dos teus lábios,
o sabor do teu beijo,
e a brandura dos cabelos
que teimavam em ocultar-me a tua face.
Agora que não estás comigo
imagino os jogos e ternuras que deixamos atrás...
Quieto,
roubo à memória migalhas de felicidade
enquanto, lá fora,
pássaros cantam a sinfonia da vida.
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