Despertei noite passada
com uma dose de angústia
a impedir-me os pulmões
e o sentido da insônia tão certo quanto a distante aurora.
Experimentando os terrores de um pesadelo
que os limites da consciência desperta não respeita,
em delírios rolei pela cama e
sofri frios os suores de febre.
Antevi meus ossos abandonados
em tempos do porvir, esquecidos e anônimos.
Chorei a perda de entes vivos,
a doença de amigos sãos,
as desilusões de amores que não hei de viver.
Frequentei carnificinas,
traições e desenganos.
Senti o cheiro de pólvora
no cadáver putrefato.
Com uma lança enferrujada
feri o peito de homens santos
e sorvi quente o gosto do sangue derramado.
Vivi a vingança, o desespero e a ansiedade.
E com uma multidão de corpos
gozei orgias.
Vomitei absinto
sobre a sabedoria dos homens.
Em completo deleite,
comi carne humana...
E um tanto mais tarde,
liberto da gravidade da cama,
deixei-me fumando,
perplexo e desentranhado,
com os meus olhos cansados e vivos
a examinar as rachaduras do espelho.
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