terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Retratos

Ao fundo anuncia um sino rouco
o cotidiano (e) mesmo
continuar do mundo.
E no quarto de pensão
antigo e desbotado
dois corpos amantes
repousam tranquilos.

O cheiro do amor gasto
suja o ar e entorpece o ambiente.

As roupas -
largadas ao chão em movimentos urgentes -
pintam o cômodo
com seus matizes de vermelho impuro
e ofuscam, sutilmente,
a tênue luz do abajur ligado.

Vestígios de cor madeira
mancham os lençóis
(copos tombados pelo descuido ou pelo prazer).

Ao redor,
o espelho
a janela
o molho de chaves
a aurora
a estante e seus livros
os discos de jazz
as fatais seringas depositadas delicadamente ao pé do criado mudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário